Genética Brasileira em Destaque: Novas Pesquisas e o Potencial da População Mais Diversa do Mundo

0
5

Por: Ângelo Ribeiro Fróes

Pesquisas inovadoras, que vão desde a medicina de precisão até a identificação forense e a longevidade extrema, estão centradas na riqueza genética do Brasil, resultado de cinco séculos de miscigenação. Novos estudos mostram um grande e inexplorado reservatório de variantes genéticas, colocando o país na liderança da genômica mundial.

O Legado Genético dos Supercentenários no Brasil
Entre as áreas mais intrigantes da pesquisa genética no Brasil, destaca-se o estudo da longevidade extrema. Um grupo de cientistas, liderado pela famosa geneticista Dra. A pesquisadora Mayana Zatz, do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), está à frente de estudos que envolvem uma coorte singular de supercentenários brasileiros, entre os quais se destacam a freira Inah, que faleceu em abril de 2025 aos 116 anos, e o atual homem mais velho do mundo, que possui 113 anos.

Essa pesquisa é especial por causa da diversidade genética da população brasileira, que os pesquisadores descrevem como “a mais rica do mundo”. Enquanto a maioria dos grandes bancos de dados genômicos inclui indivíduos de origem europeia, o Brasil tem o potencial para gerar descobertas exclusivas. Um estudo genômico preliminar envolvendo mais de 1.000 brasileiros com mais de 60 anos já identificou 2 milhões de novas variantes genéticas. De acordo com uma investigação recente, foram descobertas na população brasileira mais de 8 milhões de variantes genômicas não descritas, sendo mais de 36.000 potencialmente deletérias.

Estudar esses supercentenários e suas famílias, como o exemplo de uma mulher de 110 anos, cujas sobrinhas têm 100, 104 e 106 anos, pode revelar os segredos biológicos da longevidade . Os cientistas sugerem que grupos miscigenados podem conter “variantes protetoras únicas” que são invisíveis em populações mais homogêneas . Já existem estudos que indicam diferenças biológicas significativas nesses indivíduos, como a preservação da atividade proteassomal em níveis similares aos de pessoas muito mais jovens e a proliferação de células T CD4+ citotóxicas, um perfil imunológico peculiar .

Rastreando a História e o Futuro da Saúde.
A genética brasileira é crucial para compreender a predisposição a doenças e para desenvolver estratégias de saúde pública mais eficientes. Recentemente, dois estudos publicados demonstram claramente esse potencial.

Genética do câncer: um biorepositório para o porvir.
Cientistas do Brasil criaram um biorepositório significativo para realizar estudos de associação genômica ampla (GWAS) e analisar escores de risco poligênico (PRS) para cânceres colorretal, de mama e do colo do útero. O projeto já registrou 4.062 pessoas, resultando em 39.700 amostras biológicas e genotipando 2.844 indivíduos .

Essa iniciativa é crucial, considerando que mais de 90% dos participantes de estudos GWAS em todo o mundo são de origem europeia . Isso restringe a utilização dos resultados para grupos miscigenados, como os brasileiros. Com todos os estados representados, o biorepositório vai possibilitar a investigação da transferibilidade dos escores de risco criados em outras populações para os brasileiros, o que é fundamental para que a medicina de precisão se torne uma realidade no país.

G6PD e Malária na Amazônia
O Brazilian Journal of Infectious Diseases publicou um estudo sobre a presença de variantes do gene G6PD, que estão ligadas à deficiência da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PDd), em populações que são endêmicas para malária no Norte do Brasil.

A G6PDd é a mais comum das doenças enzimáticas em todo o planeta, sendo especialmente prevalente em áreas onde a malária é endêmica. O levantamento genotipou 481 pessoas das comunidades rurais do Acre, Amazonas e Rondônia, reafirmando a predominância da variante A- (376G/202A), de origem africana, responsável por 95,8% dos casos de deficiência enzimática . Contudo, os cientistas observaram que as frequências alélicas variavam, sendo A- a mais frequente em Porto Velho (RO), o que se alinha com a maior ancestralidade africana da região. O estudo enfatiza a importância de uma vigilância genética em toda a população para que os tratamentos contra a malária sejam seguros e eficazes, uma vez que certos medicamentos podem causar hemólise em pessoas com G6PDd.

Inovação Forense e Medicina Personalizada
Para lidar com a diversidade genética do Brasil, são necessárias ferramentas específicas, e a ciência nacional lidera essa iniciativa.

Machine Learning para Predição de Fenótipos
Os pesquisadores publicaram na ScienceDirect o BR-FDP-SKIN, uma ferramenta online e gratuita que usa algoritmos de aprendizado de máquina para prever a cor da pele a partir do DNA de indivíduos da população miscigenada do Sul do Brasil.

Um estudo conduzido por geneticistas da PUCRS avaliou um painel de 66 SNPs (polimorfismos de nucleotídeo único) em 438 gaúchos, que foram classificados de acordo com a escala de Fitzpatrick . Os algoritmos de machine learning mostraram-se mais eficientes ao prever fenótipos de pele em categorias amplas (como pele clara e escura), e a ferramenta já pode ser acessada online pela comunidade científica. Embora essa tecnologia possa ser utilizada na forense e na antropologia, ela também gera discussões éticas significativas sobre a utilização de dados genéticos para a previsão de características físicas.

Desenvolvimentos em Marcadores Forenses e Novos Alelos do HLA
Simultaneamente, pesquisadores realizaram a primeira avaliação de um painel de microhaplótipos voltado para a identificação humana e a inferência de ancestralidade em uma população brasileira que é rica em mistura genética, a coorte SABE da cidade de São Paulo. Os microhaplótipos são marcadores genéticos com maior poder de discriminação do que os STRs clássicos utilizados na genética forense, e os resultados deste estudo indicam que eles podem ser uma ferramenta complementar poderosa.

Em outro ponto, a descoberta de 22 novos alelos HLA em doadores de medula óssea brasileiros evidencia como ainda estamos longe de conhecer toda a variabilidade genética do país . O sistema HLA é determinante para o êxito de um transplante, e a descoberta desses novos alelos por meio do sequenciamento de nova geração (NGS) é essencial para aumentar as possibilidades de encontrar doadores compatíveis para pacientes brasileiros .

Doenças Raras e a Colonização
Pesquisadores brasileiros e portugueses exploraram a variante p.Ala1035Val no gene NPC1 em uma investigação sobre a doença de Niemann-Pick tipo C (NPC), publicada na Molecular Genetics and Metabolism. Os cientistas encontraram indícios de um “efeito fundador” resultante da colonização portuguesa, sugerindo que essa mutação foi introduzida no Brasil pelos colonizadores.

A pesquisa expande o conhecimento sobre as variantes da NPC1 e sublinha como a análise de haplótipos pode ajudar a rastrear a origem das doenças e a aprimorar a estratificação dos pacientes no contexto clínico. Este estudo ilustra como a genética populacional pode, simultaneamente, esclarecer a história do país e fornecer recursos para o diagnóstico e tratamento de doenças raras.

Para resumir,
Os mais recentes estudos indicam que a genética vive um momento de grande intensidade no Brasil. A diversidade genética, o uso de tecnologias de ponta como o machine learning e o sequenciamento de nova geração, e o foco em questões de saúde pública colocam a ciência brasileira no topo da genômica mundial. Essas descobertas, que vão da compreensão da longevidade à geração de ferramentas para a medicina de precisão, podem trazer ganhos não apenas para os brasileiros, mas para a ciência em todo o mundo, preenchendo lacunas importantes no entendimento da diversidade humana.