Por: Ângelo Ribeiro Fróes
O Brasil está passando por uma intensa agitação no setor de medicamentos para emagrecimento. Enquanto a Anvisa apressa a liberação de novas versões legais e mais em conta dos chamados análogos do GLP-1, uma verdadeira organização criminosa se estabelece na fronteira para abastecer o Brasil com essas substâncias ilegais. A obsessão por “canetas emagrecedoras” já movimenta bilhões e expõe uma realidade de dois lados: o da inovação acessível e o do risco sanitário.
A proliferação de aprovações e a entrada dos genéricos
Na última segunda-feira (17), a Anvisa fez história ao aprovar duas novas formulações de semaglutida, tornando-se a primeira agência no mundo a aprovar um medicamento genérico para tratamento de emagrecimento . O laboratório EMS é responsável pela produção do genérico, que não terá um nome comercial e deverá ser disponibilizado nas farmácias com preços significativamente inferiores aos dos medicamentos originais.
Além do fármaco genérico, a agência liberou também o Semaclique, um produto similar do laboratório Germed. A Anvisa já autorizou oito versões do medicamento, fabricadas por seis laboratórios distintos, já que a patente da semaglutida (princípio ativo do Ozempic e Wegovy) expirará em março. Especialistas afirmam que a corrida não terminará nesse ponto: as futuras inovações incluem versões orais (em forma de comprimidos), que eliminariam a necessidade da injeção, e medicamentos com uma duração de ação ainda maior.
“Estes produtos são medicamentos estritamente controlados, indicados para pacientes com diagnóstico de diabetes tipo 2 ou obesidade. A Anvisa destaca que esses medicamentos “Só podem ser usados com acompanhamento médico e receita, devido aos riscos de efeitos colaterais graves”.
A Praga do Contrabando
À medida que o mercado legal se desenvolve, o ilegal cresce a uma velocidade alarmante. A grande procura e os altos preços proporcionaram um terreno fértil para o crime organizado. Conforme dados da Polícia Federal (PF), foram apreendidas 165,6 mil unidades de remédios para emagrecimento entre janeiro e junho de 2026 em todo o Brasil, quase três vezes mais do que o total do ano de 2025. No mesmo período, a Receita Federal apreendeu 158,3 mil canetas, com foco exclusivo nesses instrumentos de escrita .
O que anteriormente consistia em um comércio de pequenos vendedores informais tornou-se uma atividade profissional. A organização criminosa já possui depósitos no Paraguai que enviam cargas diretamente para caminhões, sem passar pelo comércio de fronteira. A maior parte das apreensões da Receita Federal, 61,2% delas, ocorre no corredor que passa por Foz do Iguaçu, no estado do Paraná .
“É impressionante como no mercado negro elas aparecem a passos largos.” Aqueles que adquirem uma ilegal de um camelô ou de um grupo local raramente se consideram clientes do crime organizado”, conforme aponta a Gazeta do Povo.
Ameaças e a farsa da “caneta do Paraguai”.
O preço é a maior atração do mercado clandestino, mas o custo para a saúde pode ser exorbitante. As canetas que são comercializadas sem registro, muitas vezes chamadas de versões do Mounjaro, não foram submetidas à análise da Anvisa em relação à qualidade, eficácia e segurança.
Mesmo que os testes de laboratório indiquem a presença do princípio ativo, isso não garante que o produto seja puro, que tenha a concentração correta ou que esteja livre de contaminação. Especialistas avisam que a substância pode estar presente em quantidades muito superiores às indicadas, o que aumenta o risco de overdose e efeitos adversos graves para o usuário. Além disso, a ausência de um resfriamento adequado no transporte e na armazenagem pode comprometer a integridade do medicamento, tornando-o ineficaz ou até arriscado.
Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a forma como alguns veículos de comunicação realizaram os testes com essas canetas foi lamentável, uma vez que, apenas pelo fato de conter a substância ativa, elas não são seguras ou equivalentes aos medicamentos originais.
Considerações finais
O Brasil se encontra em uma encruzilhada no setor farmacológico. De um lado, a expiração de patentes promete tornar um tratamento inovador muito mais acessível a milhões de pessoas que lutam contra a obesidade e o diabetes. Por outro lado, a busca por resultados imediatos e a baixo custo está impulsionando uma rede de contrabando que ameaça a saúde pública, operando uma cadeia criminosa cujo crescimento já supera o do contrabando de cigarros. O que se pode aprender com isso é que não há um método seguro para emagrecer que dispense a supervisão médica e a regulamentação adequada.

