Por Ângelo Ribeiro Fróes
O dia 2 de abril não é meramente uma data do calendário assinalada pela cor azul. O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, estabelecido pela ONU em 2007, atua como um indicador da evolução da sociedade na compreensão do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e da contínua negligência dos direitos fundamentais dessa população.
Foto: Símbolo mundial do autismo.
Atualmente, estima-se que haja mais de 70 milhões de indivíduos com autismo no mundo, dos quais aproximadamente 2 milhões estão no Brasil.
O contexto atual está de transição: passamos de uma era de invisibilidade para um período de diagnóstico em ascensão, embora ainda enfrentemos barreiras estruturais.
Quais foram as melhorias implementadas?
Nas últimas décadas, conquistas substanciais modificaram o curso de numerosas famílias:
Legislação Sólida: A Lei Berenice Piana (12.764/12) representou um marco no Brasil, estabelecendo a Política Nacional de Proteção dos Direitos da pessoa com TEA e assegurando que o autista seja reconhecido como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.
Diagnóstico Precoce: O acesso à informação possibilitou que pais e pediatras reconheçam sinais de alerta com maior antecedência. Intervenções iniciadas antes dos 3 anos de idade demonstraram resultados significativos na autonomia e na comunicação.
Visibilidade e Representatividade: A inclusão de personagens autistas em séries, filmes e livros, assim como a atuação de influenciadores digitais autistas que compartilham suas experiências, contribuiu para a humanização do transtorno e para a mitigação do estigma associado à “doença”.
Tecnologia Assistiva: Aplicativos de comunicação alternativa e softwares de organização proporcionaram voz àqueles que não falam e previsibilidade àqueles que enfrentam an ansiedade do imprevisível.
Os Desafios Cotidianos: A Obstrução do “Invisível”
Apesar do avanço, a vida cotidiana de um autista continua sendo uma série de desafios. O autismo é uma deficiência frequentemente “invisível”, resultando em julgamentos e ausência de empatia em ambientes públicos.
Sobrecarrega Sensorial: O mundo contemporâneo é caracterizado por ruídos, luzes intensas e um ambiente caótico. Para muitos indivíduos autistas, uma simples visita ao supermercado ou um percurso de ônibus pode desencadear uma crise em virtude da hipersensibilidade auditiva ou visual.
Mercado de Trabalho: A exclusão é intensa. Estima-se que 85% dos adultos com autismo estejam excluídos do mercado de trabalho formal. A inadequação dos processos de seleção e a inflexibilidade das rotinas corporativas obstruem a manifestação do potencial desses profissionais.
Inclusão Escolar “No Papel”: Apesar da matrícula ser assegurada pela legislação, numerosas instituições de ensino carecem de mediadores capacitados ou de planos de ensino individualizados, resultando na exclusão do aluno autista dentro da sala de aula.
Custo do Tratamento: As terapias, como a Análise Comportamental Aplicada (ABA), fonoaudiologia e terapia ocupacional, são fundamentais, porém exorbitantes. A disputa legal contra operadoras de saúde e a espera no SUS são experiências desgastantes para as famílias.
O Futuro: Da Conscientização à Aceitação
O principal desafio a partir de 2024 é transitar da conscientização (reconhecimento da existência do autismo) para a aceitação (modificar o mundo para que os autistas possam integrar-se).
Não almejamos apenas que as pessoas compreendam o que é o autismo. Desejamos que elas não se perturbem com nossos dispositivos de supressão de ruído, que compreendam nossos gestos repetitivos e que as empresas nos empreguem com base em nossas habilidades, e não apenas por questões de cota”, afirma um jovem autista universitário.
A trajetória está extensa, porém o percurso é irrevogável: uma sociedade que abraça a neurodiversidade é, inevitavelmente, uma sociedade mais humana e inteligente.
Autor: Ângelo Ribeiro Fróes, jornalista desde 2017 e também autista que luta pela causa.

