Autor: Ângelo Ribeiro Fróes
Ao contrário do que muitos pensam, o autismo não possui uma “cara”. Para os adultos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) de nível 1 de suporte, que antes, eram rotulados como “autismo leve” , a falta de compreensão se converte em um preconceito diário, silencioso e extremamente desgastante: a constante invalidação de sua identidade.
“Quando compartilhei que sou autista, já ouvi ‘não brinca com isso’. As pessoas acreditam que não é uma questão séria. Melhor: comentam como se fosse algo péssimo, que nem deveria ser mencionado”, diz Lui Valverde, 24 anos, que tem diagnóstico de TEA nível 1. Sua vivência reflete uma realidade que muitos compartilham: por não se encaixarem no estereótipo do autismo “clássico” — geralmente associado a pessoas não verbais ou com dificuldades intelectuais significativas, suas dificuldades e diagnósticos são minimizados ou até ridicularizados.
A batalha cotidiana contra a invalidação
A expressão mais frequente, e possivelmente a mais representativa desse tipo de preconceito, é a que refuta a própria existência do transtorno naquelas pessoas. “As pessoas pensam que autistas têm que ter um visual específico. Já escutei: ‘mas você é normal, como pode ser autista?’”, relata a empresária Thais Martyr, de 37 anos, que recebeu seu diagnóstico aos 36. Com formação e pós-graduação, além de liderar um negócio que conta com mais de 70 funcionários, Thais lidou com a descrença até mesmo de familiares, que se perguntavam como ela poderia ser autista e ainda assim ter uma vida profissional e afetiva bem-sucedidas. Essa dúvida evidencia um mito prejudicial: o de que o autismo é igual a incapacidade e dependência .
De acordo com o advogado Fabrício Rayner, de 32 anos, o preconceito também aparece na crença de que o autismo é algo que só ocorre na infância. “Muitas pessoas acreditam que apenas crianças têm autismo, ignorando a existência de vários adultos com autismo leve”, menciona . O que muitos não sabem é que o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento que permanece com o indivíduo ao longo de toda a sua vida. A falta de habilidades sociais, a hipersensibilidade sensorial e a dependência de uma rotina não somem na vida adulta; elas apenas aparecem de maneiras mais discretas.
O preço de ser “invisível” e a escolha por não acessar direitos
Frequentemente, o efeito desse capacitismo disfarçado é o isolamento e a negação de si mesmo. Para não ter que enfrentar a falta de informação e a agressividade dos outros, muitas pessoas preferem abrir mão de seus direitos. “Prefiro não utilizar um serviço preferencial a qual eu tenho direito, pois o estresse de ter que lidar com a falta de informação e agressividade das pessoas acaba sendo pior. Também por isso se torna algo que precisa ser ocultado”, admite Lui.
Essa escolha, por mais compreensível que seja, apenas perpetua o ciclo da invisibilidade, tornando mais difícil para a sociedade ver a diversidade do espectro. “Acontece de maneira corriqueira. Digo a outros que minha filha é autista e eles dizem: ‘mas ela é tão linda, nem parece autista’. “Por que autista não pode ser bonito?”, indaga Andrea Dul, mãe de uma jovem autista e presidente da Comissão de Direitos das Pessoas com Deficiência e Autismo da OAB de Poá. Segundo ela, esse tipo de preconceito muitas vezes se inicia precisamente nos lugares onde o acolhimento deveria ser garantido, como entre professores e até mesmo médicos, que desconsideram laudos por não estarem informados sobre a diversidade do espectro.
O diagnóstico tardio e o alívio (mesmo que amargo)
Buscar um diagnóstico na vida adulta é, por si só, uma trajetória de superação. Profissionais de saúde, que frequentemente estão desatualizados, ainda perpetuam estereótipos, como o fonoaudiólogo Cristiano de Oliveira, de 34 anos, que relatou ter enfrentado zombarias ao buscar atendimento no SUS. Para ele, assim como para muitos outros, receber o diagnóstico, mesmo que atrasado, foi uma verdadeira libertação. “No começo, senti-me mal por ter crescido sem saber disso e sem ter as adaptações que teriam tornado a vida mais fácil. No entanto, após superar a raiva, comecei a implementar as mudanças que melhoraram minha vida. “Foi libertador”, recorda ele, que atualmente trabalha na educação sobre autismo.
A incessante obrigação de se explicar e validar a própria identidade, como Thais menciona, é exaustiva: “É chato porque as pessoas ficam duvidando do que você é. É penoso, desconfortável, ter que justificar o que eu sou”. Para enfrentar essa situação, a solução indicada por todos é a mesma: informação. “O que falta mesmo é o interesse das pessoas. É desejar entender a variedade dos comportamentos”, finaliza Thais. É fundamental desfazer a noção de um único tipo de autismo e reconhecer que, para cada indivíduo, existe uma maneira única de perceber e se relacionar com o mundo.
Ângelo Ribeiro Fróes, jornalista, TEA e ativista pela causa dos autistas.

